Era um dia como outro qualquer. Na correria da rotina levava os papéis da empresa para serem confirmados no banco. Desci na Sé para encurtar o processo e até quem sabe ganhar tempo para um passeio na praça, dar uma olhada nos preços dos brinquedos, afinal o Natal já estava batendo nas portas, pendurando suas guirlandas e luzinhas piscantes.
Fico indignada vendo como o tempo passa rápido, acho que o metrô faz isso conosco, enquanto se dirige ao nosso destino, ele nos faz pensar em silêncio, questionar a nós mesmos como temos vivido, quem de fato somos, quem são os outros e onde buscam chegar. Todos em silêncio buscando explicações para a vida, é quase como um tempo mítico que nos envolve e perdemos a noção do que realmente estávamos fazendo ali; muitas vezes acabamos deixando passar a estação pela intensidade do pensamento.
Gosto de observar as pessoas ao redor, sempre correndo, sempre atrasadas para alguma coisa que não sabem exatamente o que é. Acho que as pessoas se sentem atrasadas pelo simples fato de ver a vida passar, o tempo passar e não poder fazer nada para pará-lo. Não estão tentando se apressar para reuniões de negócios onde ganharão um grande investimento financeiro, mas sim para poderem ter um tempo para elas mesmas. Me pergunto sobre a vida de cada uma delas, se elas gostam do que fazem ou se fazem para sobreviver; com quem essas pessoas passarão o Natal? Será que são felizes?
Em meio a essas mil perguntas que se passavam frequentemente em minha cabeça, fiz o que estava lá para fazer; entreguei os papéis e consegui dar uma pequena volta na praça, coisa de cinco minutos. Voltando ao metrô que estava lotado àquela hora do dia, sentei-me rapidamente logo que as portas se abriram. Olhei para o relógio, já eram 5 horas.
Espiei ao meu lado e fiquei intrigada com um senhor em torno dos setenta anos concentrado em um livro de Shakespeare, ele parecia muito satisfeito. Sorri. Acho incrível como essas pessoas me inspiram. Naquele momento, o homem conseguia voltar no tempo, sair da realidade chata e cansativa e ser feliz. Senti como se ele percebesse que estava observando-o, fiquei sem graça e rapidamente virei o rosto. Em um movimento lento, ele encostou no meu ombro e sussurrou “
Aqueles que não questionam nunca, não chegarão a lugar algum. Já aqueles que o fazem, aperfeiçoam o mundo, aprendem a viver e a serem felizes. A vida é efémera e não há livro que a imortalize. Precisamos experimentar as sensações, afinal viver é sentir alegria nas coisas simples. Enfim, quero dizer-te que estou aqui apenas para lhe recomendar que não se preocupe, pois será muito feliz!”
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